segunda-feira, 28 de maio de 2018

Somos uns saloios

"Não me importa de ir à toa/que o meu sonho é ver Lisboa", dizia a cantiga há muitos anos atrás. Antigamente era a capital. Para os burgueses seria Paris. Hoje acrescentou-se Londres e Nova Iorque. Mas, trate-se do povo ou da classe média, continuamos os mesmos saloios de sempre.
 Há um sentimento de inferioridade que leva a que deliremos quando falam bem de nós- gerando-se a revolta quando tal não acontece. Precisamos do reconhecimento estrangeiro. E essa é uma das grandes razões que nos levam, enquanto país, a adoptar tudo o que cheire a "progressismo". Não queremos ficar para trás, estamos fartos de ouvir dizer que andamos na cauda da Europa- já nos chega a periferia geográfica. Então, vai de promulgar legislação que nos coloque na vanguarda do mundo civilizado. Sejam as uniões de gueis (às quais alguns chamam "casamento"), sejam as adopções de crianças por casais de gueis, seja a eutanásia, seja a criminalização do abandono de animais, a despenalização do consumo de droga, o aborto gratuito, as "mudanças de sexo", seja o que for que traga o carimbo do "progresso". O português adere. Ficámos felizes quando Victor Hugo nos elogiou pela abolição da pena de morte. Continuamos a adorar que alguma figura lá de fora, mesmo a maior imbecil que seja, afirme que estamos a dar uma lição ao mundo.
 Queremos, desesperadamente, estar sintonizados com aquilo que julgamos ser o zeitgeist (poderia dizer "espírito do tempo, da época", mas o saloio que há em mim exige o termo estrangeiro).
 Este sentimento é intemporal. Há uns anos atrás ouvíamos Pelos Caminhos de Portugal e aguardávamos, com ânsia, o momento em que chegasse a nossa terra. Que alegria, o nome na rádio! "-Vejam, falou em Castelo Branco/Covilhã/Guarda/Lamego..., somos nós!". Para os outros, a desilusão: "-O grande sacana não falou no Fundão, cabrãozote". A glória não era destinada a todos.
 Hoje somos iguais. A esses que esperavam a sua vez na cantiga. Aos outros que iam à barbearia que tinha o "corte de cabelo unisexo estilo francez". Aos que faziam compras na "Paris em Lisboa". Pode-se avançar no tempo, podem melhorar as comunicações, subir os rendimentos, o gene permanece. Queremos livrar-nos do rótulo de atrasados, mostrar serviço no "concerto das nações", esquecer aquilo que somos, mas não vale a pena. As raízes não se cortam, por mais que se tente. Podemos ir a Londres ou Nova Iorque estudar arte e ver teatros e museus. Quanto mais procuramos sair da Aldeia da Roupa Branca mais ela se nos entranha.

4 comentários:

  1. É mesmo isso! Aquele padre de Bragança de que falei há uns dias no meu blogue é um perfeito exemplo de como as gentes do interior português aspiram a ser como as gentes do litoral. E as gentes do litoral aspiram a ser como as gentes das grandes capitais europeias. De fora ficam a nossa identidade e especificidade.

    Os profissionais da saúde mental dizem constantemente que tentar imitar os outros é a receita para o fracasso pessoal garantido. E apesar de eles não dizerem que isto também se aplica ao âmbito colectivo, eu estou convencido que sim!...

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    1. É isso, e parece-me que e mesmo uma das grandes razões (se não a maior) para o triunfo da agenda progressista. Mais do que razões ideológicas tem a ver com o facto de sermos uns saloios.

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  2. Pobres mas "progressistas". Acho que é esse o nosso fado desde a revolução abrileira. No caso da eutanásia é por demais evidente, visto que na Holanda ou na SUiça onde está legalizada, a mesma é feita em clínicas privadas, já aqui querem-na em "instituição de saúde pública". Eles são ricos e mandam a eutanásia para o privado, nós somos uns pobretanas (e acima de tudo saloios) mas queremos a eutanásia em hospitais públicos. Dá que pensar.

    O seu blogue é sempre um gosto de ler. Revejo-me em muito do que escreve. Não páre.

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    1. Sobretudo desde a abrilada, embora a tendência venha de tempos anteriores. Parece-me que afecta, sobretudo, as elitezinhas merdosas que temos tido. Basta lermos escritores e intelectuais do século XX, XIX e encontramos lá a afectação, a admiração pateta pelas expressões estrangeiras, pelo que vem de fora, a sabujice face à Europa civilizada. Enfim...

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