terça-feira, 3 de abril de 2018

Coisas



Se entro para um clube, seja ele qual for, aceito regras. Se abro uma conta no banco, aceito regras. Se ponho um anúncio no OLX, aceito os termos propostos. Em todo o lado onde me proponho aceder existem regras. Só na Igreja Católica a sua existência parece incomodar os crentes. Vai daí, temos a escolha a la carte. É o “sou católico, mas…”.
 Mais ou menos como o jogador de futebol que assinasse por um clube, mas… “Peço desculpa, mas só venho a três treinos semanais. E não gosto muito do equipamento do clube, uso-o contrariado, para que se saiba. Ah, e não concordo com a regra dos jogos terem noventa minutos. Acho que deviam ser sessenta, de maneira que tudo o que ultrapasse isso não contem comigo”.
 Alguém manda alguém ser católico? Alguém manda alguém ficar se está contrariado, se não concorda com as regras? O “católico” moderno tem dificuldade em perceber isto, em entender a necessidade de dogmas, mesmo quando ele próprio é o mais dogmático de todos. Quer ser moderno e progressista e pensa, na sua cabecinha, que isso implica desregramento e opinião sem fundamento. Depois, como tem receio de parecer “antiquado”, faz trinta por uma linha para ser avançado. Não baptiza os filhos porque acha que eles devem decidir sobre isso. A sério, senhor católico? Você também pergunta ao pequeno de meses se quer ser alimentado? Ou se prefere leite materno ou biberão? Pergunta-lhe se quer aprender a ler ou se prefere o analfabetismo? “Ah, mas isso não é a mesma coisa”. Pois não, é mais importante ainda.
 O católico a la carte faz de Jesus um fixe e de Deus uma espécie de pedagogo. Como acha que não há pecado não se preocupa com a salvação, coisa antiquada e fora de moda. Herdeiro de Rousseau, vê em Deus o grande pedagogo que nos passará a todos. Se os putos passam de ano com sete negativas por que razão hei-de eu ser condenado por meia dúzia de pecados (a tal coisa antiquada)? Sim, Deus é um professor amigo que não reprovará ninguém. No máximo, dar-nos-á um raspanete e siga. Antigamente, não existia pecado a sul do Equador, Ney Matogrosso dixit. Agora, desapareceu também do hemisfério norte.
 Jesus, esse, é um porreiraço. Não quis impor nada, não quis criar uma Igreja, andava rodeado de gajas e era amigo de toda a gente, não condenava ninguém. Senhor católico, se Jesus quisesse ser um fixe não tinha aparecido quando apareceu. Se Jesus quisesse ser porreiro para toda a gente tinha criado uma qualquer seita orgiástica, coisa que não faltava á data. Se Jesus não condenasse e alinhasse com os invertidos tinha aparecido hoje e ia desfilar numa parada guei. Mas apareceu há dois mil anos. Se o fez, tinha as suas razões. Não apareceu hoje, talvez porque não quisesse ser moderno e progressista e não desejasse que fizessem dele uma caricatura de pós-modernidade, vazio de ideias e doutrina.
 Não, senhor católico, a crença implica regras, implica dogmas. Não concorda? Sai. Quer mudar? Funda a sua própria seita. Adequada a estes tempos em que qualquer analfabeto julga ser capaz de interpretar a Bíblia e a vontade de Deus. Gente que não sabe interpretar as instruções de um electrodoméstico, gente que não sabe interpretar as condições de um empréstimo, gente que não sabe interpretar um horário de autocarro, mas acha-se capaz de penetrar nos desígnios de Deus e ler a Bíblia sem qualquer instrução. Isto é o cúmulo da presunção. Depois dizem que a Igreja é que é dogmática.

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