sábado, 17 de março de 2018

Liberdade

 No dia em que passam 25 anos sobre a morte de António José Saraiva, um dos pensadores lúcidos do século XX português.

"Para nós, o sistema de liberdades tal como existe no Ocidente da Europa é um milagre da História, no mesmo sentido em que se fala de 'milagre grego': uma realidade que nasceu e resistiu à destruição, tendo a seu favor muito poucas probabilidades de sobreviver. Não há regime semelhante na Ásia; na África nem falamos; na América pré-colombiana civilizada havia regimes comunitários e colectivistas em que os indivíduos estavam programados em todos os actos da sua vida pela autoridade central. O sistema ocidental de liberdades é portanto uma flor rara, única, cuja semente partiu de uma zona localizada. Já na sua periferia, na planície russa e ucraniana ou nas montanhas dos Balcãs, dominadas pelos czares,pelos Tártaros ou pelo Grão-Turco, essa semente não conseguiu vingar. Ela resultou, talvez, de uma combinação do universalismo grego, do cristianismo e do individualismo germânico, e a sua primeira declaração, ainda imperfeita, é a Magna Carta inglesa.
 Esse tipo de sociedade não era desconhecido na Península Ibérica, como o mostram as nossas instituições medievais. A servidão da gleba já aqui não existia (...). Mesmo sob as ditaduras salazarista e franquista, as liberdades de ocupação, de deslocação, de propriedade, de associação (desde que não fosse política) existiam. (...).
 No entanto,filha do tempo,como tudo, a Liberdade está ameaçada de ser devorada pelo tempo."- António José Saraiva, Filhos de Saturno- escritos sobre o tempo que passa, Amadora, Bertrand, 1980, pp.13-14.


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