segunda-feira, 26 de março de 2018

Cem anos de revolução

Aqui fica o meu texto saído no primeiro número da Plus Ultra (Novembro de 2017) acerca da literatura editada em 2017, entre nós, a propósito do centenário da revolução de Fevereiro e do golpe posterior, de Outubro.


Cumpre-se neste ano o centenário da revolução bolchevique, um dos momentos negros da história da humanidade. Cem anos, cem milhões de mortos – e isto numa estimativa conservadora. A propósito desta data têm sido editados diversos títulos no mercado editorial português. De entre eles destacamos cinco e mais um.
 O primeiro chama-se Apanhados Pela Revolução (Ed. Temas e Debates). Escrito por Helen Rappaport, da qual existe uma outra obra traduzida em Portugal (sobre os últimos dias dos Romanov), relata-nos os dias das revoluções (Fevereiro e Outubro) vividos por alguns estrangeiros apanhados pelo vendaval russo. A acção centra-se, essencialmente, em São Petersburgo e nela intervêm personagens tão díspares como o embaixador britânico e família ou simples funcionários bancários norte-americanos que continuaram a fazer o seu trabalho – dentro do possível – enquanto o mundo se desmoronava. A obra oferece-nos uma narrativa muito viva e interessante a partir, pois, das experiências pessoais de quem estava na capital russa nessa data fatídica. É, provavelmente, o melhor livro sobre a revolução russa editado entre nós neste ano.
 Um segundo volume a destacar, também da responsabilidade da Temas e Debates, é Lenine no Comboio. Neste ficamos a conhecer todo o processo que levou ao regresso de Lenine à Rússia após a revolução de Fevereiro. São-nos dadas a conhecer as negociações com os alemães, as diferentes posições tomadas pelas diversas facções de exilados e o percurso feito por Lenine e o seu grupo em território alemão e para lá dele bem como as condições materiais em que foi feito.
 Focado na figura do último governante imperial encontramos O Último dos Czares, de Robert Service (edição Desassossego). Um relato detalhado do último ano de vida do czar e família, bem como de alguns dos seus acompanhantes. A serenidade com que aceitou a deposição, a preocupação demonstrada com a família e seu destino, a progressiva degradação das condições de vida de todo o grupo e as discussões levadas a cabo pelas autoridades bolcheviques em relação à atitude a tomar face a Nicolau II são aqui dissecadas. Durante décadas discutiu-se qual o papel de Lenine no processo, atirando-se a responsabilidade exclusiva para o soviete dos Urais e líderes locais de Ekaterimburgo. Hoje parece não restarem dúvidas acerca do que sucedeu. E, se é verdade que foi a nível local que a farsa se desenrolou, o certo é que as cúpulas de Moscovo foram-se mantendo a par do que sucedia. A tese de um poder descentralizado à data serve muito bem os propósitos de ilibação de Lenine, mas o certo é que o chefe conhecia muito bem o cenário e teve responsabilidades efectivas no desfecho. Também a desculpa segundo a qual o czar foi executado por receio de uma libertação por parte de forças contra-revolucionárias não colhe. Uma evacuação teria sido possível, se assim o fosse desejado pelas autoridades bolcheviques. Tratou-se de um assassinato, nada mais. Um de uma longa lista que começou em 1917 e ainda não terminou – o comunismo continua ainda a matar.
 O quarto volume a destacar é A Revolução Russa, de Sheila Fitzpatrick (edição Tinta-da-China). A ler com o necessário distanciamento crítico, ou não fosse a editora responsável uma das que mais se tem destacado na publicação de obras de pendor esquerdista nos últimos anos, fornece-nos algumas linhas de análise com interesse acerca do que sucedeu na Rússia imediatamente antes das revoluções e no período posterior que vai, sobretudo, até ao início dos anos trinta e consequente consolidação do poder estalinista.
 Finalmente, não querendo ser exaustivo, salientamos Estaline e os Cientistas, de Simon Ings (edição Temas e Debates). Não sendo, propriamente, uma obra sobre a revolução é um trabalho que nos mostra o que pode suceder quando a ideologia manda e procura deformar uma sociedade. Além das reais conquistas da ciência soviética em alguns campos o que se destaca é a perversão da ciência pela ideologia. O caso do charlatão Lyssenko é aqui dissecado e deve servir de alerta para os perigos da manipulação dos dados e da prática científica quando aqueles que a praticam colocam à cabeça a crença em determinada ideologia, no caso o marxismo. É uma lição para os nossos dias, nos quais a pseudociência do género, por exemplo, causas danos significativos no tecido social, dados que poderão ser irreparáveis se nada for feito. Portanto, repetimos, nunca é demais procurar compreender aquilo que a pseudociência marxista fez à verdadeira pesquisa, pois o processo repete-se aos nossos olhos.
 O título final a relevar é o inevitável Arquipélago Gulag, de Alexandre Soljenitsine, reeditado pela Sextante e sobre o qual não vale a pena acrescentar nada pois tudo, ou quase, já foi dito.
 Outras obras sobre a revolução russa e suas consequências têm sido editadas ao longo do ano, embora não tão significativas. Algumas delas são mesmo movidas por uma intenção de apresentar a data a uma luz benevolente, como se fosse um momento marcante da evolução humana num sentido positivo e as suas lideranças movidas pelo amor à humanidade. O branqueamento e o revisionismo acompanham a História há muito embora, como sabemos, o mesmo seja apenas condenado quando se apresenta numa única direcção. Quando a purificação se faz em relação ao marxismo e derivados estamos sempre perante boas intenções, as mesmas que moviam os que desde 1917 fuzilaram, mataram à fome, enviaram para o Gulag, etc, aqueles que não partilhavam da sua visão religiosa secular.  

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