segunda-feira, 22 de janeiro de 2018

No mundo há feministas. Depois, felizmente, existem mulheres

"A velha que tenho diante de mim é o tipo que esta vida foi transformando, amolgando, rugas por onde têm caído as lágrimas, mãos deformadas e negras, que ganham o pão de cada dia, cheiro a salmoura, e uma beleza extraordinária, a beleza da verdade e da vida trágica, dos que cumprem a existência e só caem esfarrapados e exaustos:
 -O estipor da vida que eu levo, sempre molhada até aos ossos! até ficar encangarada como estive sete meses! Juro pela rosa divina (o sol) que é verdade o que digo! Por causa destes homes! pelos sete filhos que criei aos meus peitos, dia e noite naquela estrada! Às vezes a minha vontade era deitar-me no chão e nunca mais me erguer. Se há inferno! se depois do que eu tenho chorado inda há inferno!...
 Assim Deus me livre daquele leão sagrado (o mar), ou eu seja como a Antónia da Joana (cega) se não falo verdade... Morrer? diz vossemecê que é melhor morrer? Não! viver pelos netos, pelos homes e trabalhar até ao fim dos meus dias!

Tive sempre a ideia que quem manda no país é a mulher. Na lavoura, às vezes o bruto bate-lhe, mas é ela que o guia e lhe dá os mais atilados conselhos. E é ela em toda a parte que nos salva, parindo filhos sobre filhos para a emigração, para a desgraça e para a dor. Creio que só assim parindo e gemendo, tecendo e lavrando, mas principalmente parindo, é que se equilibra a nossa balança comercial, o que nos tem permitido viver como nação independente. Diz um amigo meu:
 -Portugal enquanto tiver a mulher e a sardinha, não morre.
-E é verdade. Valem mais que o homem, sacrificam-se mais que o homem". -Raul Brandão, Os Pescadores in A Vida e o Sonho - inéditos, antologia e guia de leitura, Silveira, E-Primatur, 2017.

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