quarta-feira, 15 de novembro de 2017

Três pessoas já é um ajuntamento

No programa da manhã da rtp o Jorge Gabriel está à conversa com os UHF, grande banda roque e contestatária. Diz o Jorginho que no tempo do fassismo três pessoas na rua podia ser considerado um ajuntamento e podia aparecer a pide. Na audiência há jovens e aprendem.
 É verdade. No tempo do Estado Novo era assim. Nos jogos de futebol, por exemplo, não havia mais de duas pessoas nas bancadas. Mais do que isso era um ajuntamento. Vinha a pide e acabava o jogo. Quando vemos imagens de multidões nos estádios é tudo falso. São montagens. As próprias equipas de futebol tinham imensa dificuldade em reunir-se. O futebol de onze não existia, só o de dois. Mas como duas equipas somavam quatro também não dava. Fora os árbitros, que nunca podiam contar com os fiscais de linha, um acabava sempre preso. Pelo menos.
 Casamentos? impossível. Noivos e testemunhas dava ajuntamento. Vinha a pide e ia tudo preso. Os empresários da restauração queixavam-se, mas não podiam ir protestar. Como eram mais de dois vinha a pide e levava-os.
 Complicadas eram as saídas das escolas e universidades. Complicadas e demoradas. Tinham de ser feitas a conta-gotas. Um a um, porque se a rapaziada saísse toda junta tinha a pide à espera e ia tudo preso. Se as aulas acabavam às seis da tarde o último a sair só o conseguia fazer por volta da meia noite, meia noite e meia.
 A própria pide tinha problemas com os ajuntamentos. Mais de dois agentes da pide na rua era considerado como tal. E vinha logo a pide prender os agentes da pide. Mas se eram mais de dois a prender os primeiros três tinham logo de aparecer outros a prender os que prendiam os primeiros. E assim sucessivamente. Eles bem diziam que eram da pide e estavam a cumprir as ordens, mas de nada lhes valia porque os outros diziam que a lei era igual para todos.
 Missas? só com duas pessoas e nada de coros ou afins. Feiras, festas e romarias também não. Passeios familiares só com menos de três pessoas. O mais frequente era verem-se casais a passear ao Domingo, sozinhos. Filhos, se os houvesse, ficavam em casa. Um casal com dois filhos era uma multidão. E, claro, podia aparecer a pide.
 Crianças a brincar também não podia ser. Só se fosse a jogar xadrez ou a fazer paciências. Jogos de futebol acabavam com a bófia a interromper. O pior mesmo eram brincadeiras de cóbóis e índios. Além de envolverem mais de duas crianças implicavam tiros, gritos e, portanto, subversão. E lá aparecia a inevitável pide.
 Era assim Portugal no Estado Novo. Bom, bom, era na URSS e no Leste Europeu. Onde a malta se podia juntar, cantar, dançar e folgar animadamente. Sempre sem receio de que aparecesse a pide.

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