sábado, 19 de maio de 2018

Cesário Verde

Um textozinho que escrevi há uns tempos sobre um poeta que, infelizmente, ainda não é suficientemente reconhecido.


Em Cesário Verde encontramos um representante da Modernidade. Sendo o progresso uma das suas categorias podemos encontra-lo nos versos do autor, em alguns pelo menos. Mas é um progresso simples, afastado do cosmopolitismo dos grandes centros europeus. É o progresso de uma pequena e média burguesia, á mistura com operários que davam vida a uma industrialização incipiente num cenário marcado ainda por fortes traços rurais que estarão presentes na cidade de Lisboa até bem entrado o século XX.
  Da sua experiência comercial e do contacto com os diversos caracteres da cidade fará eco a sua poesia, sendo daqui que “deriva a atenção do poeta e o seu interesse humano pelos ‘bons trabalhadores’ (…). E também do seu conhecimento directo dos utensílios de trabalho, todos dignificados poeticamente nos seus versos (…), e descritos com a objectividade e, simultaneamente, o apreço de quem os manuseia e os sabe avaliar, provém a visão prática, objectiva, o amor da realidade concreta, o gosto do que é honesto, forte, saudável, que Cesário, identificado com a civilização industrial, tão genialmente nos soube transmitir. ‘Sei só desenho de compasso e esquadro,/ Respiro indústria, paz, salubridade’” (Ferreira, s/d: 10).
 Poesia da Modernidade é também, em consequência, poesia da imagem num século que a reinventou através dos novos discursos na pintura ou da entrada em cena do daguerreótipo. “Na poesia de Cesário Verde há uma capacidade para visualizar e analisar, através de uma especial percepção, a realidade: ‘Eu que medito um livro que exacerbe/ quisera que o real e a análise mo dessem’; ‘eu tudo encontro alegremente exacto’; ‘o ritmo do vivo e do real’” (Guimarães, 2007: 124). Ora, sendo devedora do seu tempo, será devedora dessas novidades pictóricas de forma directa? “A presença impressionista na sua poesia é detectada por José Régio: ‘Cesário Verde cria essa poesia que parece flutuar sobre estes dois mundos (‘mundo interior’ e ‘mundo exterior’) sem chegar a relacioná-los, e deles transmitindo principalmente os pormenores, os momentos fugidios, as nuances destacadas. É uma poesia essencialmente impressionista ‘” (Avelar, 2006: 134). Perspectiva não partilhada por Jorge de Sena “o qual ‘ defende que os poemas de Cesário não se organizam segundo uma típica dispersão impressionista’” (Avelar, 2006: 134) mantendo-se a fidelidade a uma temática tradicional, pelo menos numa boa parte da sua produção. Impressionista ou não, a sua poesia contém (no que Jorge de Sena e José Régio concordam) “uma dimensão visual devedora do discurso pictórico” (Avelar, 2006: 134). Em sintonia com esta perspectiva Fernando Cabral Martins, “a propósito do poema ‘Esplêndida’, refere que este ‘é como um quadro animado, de uma nitidez que é efeito novo da figuração, no seu interior, do próprio olhar que vê’” (Avelar, 2006: 135). Para Mário Avelar, o poema citado “ ecoa a estética impressionista que será particularmente reconhecível quando estabelecemos uma relação com a pintura de Monet (…). O intenso visualismo poderá ser igualmente detectado através da evocação de pintores como Courbet ou Arcimboldo” (Avelar, 2006: 135), presente em poemas como Num Bairro Moderno onde, em certos fragmentos “e a partir deles Cesário projecta uma intensa sensualidade” (Avelar, 2006: 136). Esta, de resto, seria de algum modo recorrente na sua poesia, na qual “há (…) uma sexualização da cidade, o que mostra como será menos importante em Cesário Verde o envolvimento temático em torno de referências citadinas ou campestres que as transferências para outros níveis significativos (…). Com efeito, á sexualização da cidade através da mulher (…) corresponde a atracção da morte, a doença, a ameaça da peste, que poderão encontrar precisamente na mulher um mediador (…). Há, pois, um relacionamento entre um sentido erótico e uma secreta referência à morte, como se estabelecesse uma das futuras visões decadentistas” (Guimarães, 2007: 126-127). Para Mário Avelar a centralidade do “diálogo entre discurso poético e pintura revela a modernidade” da poesia do autor em causa num anúncio de “superação da dicotomia apresentada por Lessing”.
 A sua modernidade, estranhada á data, seria posteriormente reconhecida por, entre outros, Fialho de Almeida (para o qual Num Bairro Moderno “excedia tudo o que eu lera em poesia impressionista”, Mário de Sá-Carneiro e Fernando Pessoa. “Seja como for, a capacidade bem notória em Cesário Verde para visualizar e analisar com um rigor quase cristalino a realidade não impede que na sua poesia se desenhe também (…) uma dimensão expressiva simbólica e transfiguradora” (Guimarães, 2007: 128).
Bibliografia:
Avelar, Mário, Ekphrasis – o poeta no atelier do artista, - Lisboa, Cosmos, 2006.
Ferreira, Maria Ema Tarracha, Introdução in O Livro de Cesário Verde, Lisboa, Ulisseia, s/d.
Guimarães, Fernando, Sentido e Sensibilidade – do Romantismo à actualidade, Porto, Caixotim, 2007
Verde, Cesário, Cânticos do Realismo e Outros Poemas, Lisboa, Relógio d’Água, 2006.


Sem comentários:

Enviar um comentário