quinta-feira, 12 de abril de 2018

Um fenómeno da historiografia nacional

 A historiografia portuguesa atingiu, este ano, um novo patamar e uma proeza notável: dar vida a um morto.
Eu pensava que pouca coisa me poderia surpreender naquela depois de ler o catedrático Luís Reis Torgal escrever que durante o Estado Novo "todas as obras escritas sobre o comunismo ou a URSS eram praticamente proibidas". Tendo em conta que volumes acerca de ambos os temas citados foram editados entre 1933 e 1974 (ou 1968, se quisermos ser mais rigorosos) há aqui uma falha qualquer- e não é minha.
 Entretanto, estava hoje a ler Inimigos de Salazar, que me foi oferecido há pouco tempo, quando me deparo com isto: "Para António Sardinha, a 'salvação' surgiria com o golpe de Estado que, em 28 de Maio de 1926, derrubou a I República. Três anos depois, provavelmente para se defender das críticas dos adeptos de Charles Maurras que o acusavam de 'mania rácica', Sardinha abandonaria a tónica racista, esclarecendo que o 'judaísmo' era 'mais um facto moral e económico do que, estritamente, um facto étnico e confessional'" (p.17).
 Isto é fantástico. António Sardinha morreu em 1925, mas Irene Pimentel consegue a proeza de escrever como se ele estivesse vivo em 1929. Confesso que fiquei alguns minutos a reflectir sobre isto (sou de compreensão lenta) e, apesar de ter a certeza acerca das datas, tive de ir confirmar à internet, não fosse estar enganado. Mas não. esta senhora, que ganhou uma série de prémios, que tem uma série de obras, brinda-nos com esta falha de principiante. Não sabia a data de morte de Sardinha? tinha ido confirmar. Não se trata, propriamente, de alguém desconhecido mas sim do nome central do Integralismo Lusitano.
 E o leitor, naturalmente, pergunta-se? se nesta obra surge uma barbaridade destas, como posso ficar descansado acerca do rigor exibido em outros trabalhos históricos que circulam no nosso mercado?

 Nota: há ainda a reter o pormenor de chamar "golpe de Estado" à revolução de 28 de Maio, mas isso ainda se pode compreender. A terminologia, muitas vezes, é dada a gosto. O 25 de Abril foi uma revolução ou um golpe? para quem diz que o 28 de Maio foi um golpe calculo que tenha sido uma revolução. É a magia do subjectivismo, do estruturalismo, etc.

7 comentários:

  1. E o leitor, naturalmente, pergunta-se? se nesta obra surge uma barbaridade destas, como posso ficar descansado acerca do rigor exibido em outros trabalhos históricos que circulam no nosso mercado?"---------------------Boa pergunta,mas eles(os apologistas encartados das várias tendências abrilinas,algumas totalitárias camufladas com "fatos democráticos")até se dão ao "luxo" de "enganar a populaça" na tv do Estado(paga por todos).

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  2. Muito bem apontado, e absolutamente lamentável.

    Tendo em conta que o regime fundado em 1974-1975 é baseado na rejeição do que veio antes, e que quase sem excepções a Intelligentsia é hostil e, para seu próprio bem, tem de mentir sobre o Estado Novo eu diria que é quase impossível encontrar historiografia séria, oficial em Portugal sobre o assunto.

    Posso dizer que não encontrei ainda nada em português que se assemelhasse a esta série de artigos sobre o Estado Novo e Salazar por Wolfgang Adler:

    https://www.socialmatter.net/author/wolfgang-adler/

    Quase que valia a pena traduzi-lo para português e fazer um livro - que nunca seria publicado pelos meios oficiais, mas ainda assim. Fica a sugestão.

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  3. O mais engraçado é que na página 14 as datas de nascimento e morte de Sardinha estão correctas. Mas na página 17 escreve como se ele estivesse vivo em 1926 e 1929, o que até pode levantar outras questões. Desde logo, houve trabalho de revisão do texto? Se houve, quem o fez? como é que deixa passar isto?

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  4. O senhor já sabe que o erro - de erro se trata, que será corrigido - vem do facto de a obra de Sardinha que cito ser póstuma (de 1929). Sou a primeira a dizer, na p. 14, que Sardinha faleceu em 1925. E sabe o que é escrita coloquial. Não sabe, mas eu explico: a primeira parte (onde utilizo um condicional) «Para António Sardinha, a 'salvação' surgiria com o golpe de Estado que, em 28 de Maio de 1926, derrubou a I República». Para ser mais claro, deveria ter colocado: "salvação surgir, após a sua morte, E, sim, trata-se de um golpe de Estado militar, a partir do qual foi instituída uma Ditadura militar. Desculpe, mas não vou explicar-lhe. Golpe militar como o foi o «25 de Abril» de 1974, mas este não se ficou por aqui, pois prosseguiu com um período (crise, ou o que lhe queira chamar)revolucionário. Quanto à segunda frase, eu devia ter escrito:«Num livro póstumo, publicado três anos depois, provavelmente para se defender das críticas dos adeptos de Charles Maurras que o acusavam de 'mania rácica', Sardinha abandonaria a tónica racista, esclarecendo que o 'judaísmo' era 'mais um facto moral e económico do que, estritamente, um facto étnico e confessional'" (p.17). Falha de revisão, certamente. Sabe, só quem não escreve livros não sabe que, infelizmente, há erros que escapam. Quanto a proezas, tenho de facto algumas, mas abstenho-me de as referir.

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    1. Seja de revisão, seja do que for, é uma falha. Que vá ser corrigida em edição posterior, óptimo. Até porque é um problema comum na edição portuguesa, mas isso será culpa dos editores, em primeiro lugar. Aliás, antigamente ainda tínhamos erratas, agora nem a isso se dignam. Quanto ao resto, obrigado pelos esclarecimentos, em particular no que toca à escrita coloquial cuja existência desconhecia em absoluto.

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  5. Em última análise, a falha é minha, porque fiz uma última revisão, onde não detectei o erro.

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    1. Aí acho que não. A falha última é da falta de revisão e, infelizmente, é um mal da edição portuguesa. Deparo-me constantemente com gralhas e falhas de revisão quando leio. E tendo em conta que os livros em Portugal não são, propriamente, baratos, acho que é uma falta de respeito para com os leitores. Mas pronto, falhas todos temos, eu também exagerei um bocado porque já tinha passado pela página 14 onde estava a data da morte do sr. Sardinha. Simplesmente, ao ler a página 17 fiquei tão pasmado que nem me lembrei da página 14- sinal, pelo menos, de que não a via capaz de uma coisa dessas. Seja como for não é por esta falha que vou deixar de ler o que escreve. este livri foi-me oferecido, mas já comprei uns quantos escritos por si. Apesar de estarmos em campos ideológicos diferentes gosto de ler o que escreve e aprende-se bastante. É como com o sr. Torgal. Têm o defeito de serem mais à esquerda, mas não se pode ser perfeito... cumprimentos.

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