quarta-feira, 18 de abril de 2018

Livro do dia: Inimigos de Salazar

É com alegria, e mesmo algum júbilo, que voltamos a falar nesta obra. É uma exposição da oposição ao Estado Novo e ao Dr. Salazar, desde os tempos da ditadura até ao ano de 1968. Inclui o Movimento Nacional-Sindicalista, esse tal pseudo-fascismo (a crer no prof. António José de Brito), do democrata tardio Rolão Preto- mas vale mais tarde do que nunca, até à comunistagem, passando pelos ressentidos como o cap. Galvão, monárquicos, católicos progressistas (nunca percebi muito bem o que é isso) e etc; aparecem todos por cá. E é engraçado ver como alguns dos truques utilizados ainda hoje já são velhos de décadas, como por exemplo a multiplicação das entidades em que os comunistas são exímios. Arranjam-se uma quantas organizações, muda-se-lhes o nome de quando em vez, e vai daí tem-se a impressão de que são muitos e a sociedade civil está mobilizada contra o regime, seja ele qual for- desde que não se trate de uma república popular, aí está tudo bem e não podia ser de outra forma, parafraseando alguém com o qual não simpatizam muito.
 Também não faltam os intelectuais, numa demonstração de que o grande erro do regime terá sido, talvez, a sempre crescente influência esquerdista nas instituições. E, já se sabe, quem vence a batalha das ideias tem meio caminho andado para vencer a guerra como bem sabia o mestre Gramsci e sequazes.
 Pelo meio são tentativas de golpes, revoltas, fugas de Peniche e mais umas quantas cadeias, oposicionistas mortos às mãos da PVDE/PIDE e por aí fora. Obviamente de um lado oposto ao nosso em termos ideológicos há aqui bastante informação relevante, embora as coisas devam sempre ser devidamente contextualizadas. Por exemplo? por exemplo, se olharmos para a repressão na URSS, farol dos comunistas portugueses, nos anos das grandes purgas temos mais de 680.000 mortos. Isto em dois anos. Ora, quantas vítimas teriam sido necessárias em Portugal para algo de equivalente? atendendo às populações dos dois países nesse período, nunca menos de 25.000. Não é a mesma coisa e a analogia não pode ser assim tão básica mas, portanto, quando falamos de repressão, vítimas, prisões, há que ter sempre em conta as circunstâncias. Nisto e em tudo. Desculpa a existência de vítimas? para uns não, para outros talvez e já o Paulo Celan dizia que o mundo era justo, e se há alguém que pode falar disso com propriedade será ele.
 O pior deste volume que fará as delícias de antifascistas de todas as idades reside nas diversas falhas que o pontuam, aqui e acolá, a mostrarem a falta que faz um bom revisor. Mas isso, já se sabe, é problema que afecta muita da edição nacional. Calculo que o ofício seja mal pago, há que cortar na despesa, depois os livros são uma carestia e deparamo-nos constantemente com gralhas, repetições e por aí fora. Antigamente, ainda me lembro bem, olhava-se com sobranceria para a saudosa Europa-América (não morreu, mas é uma sombra do que foi) e dizia-se que as traduções eram isto e aquilo, bla, bla, mas o certo é que nunca mais tivemos nada que se comparasse aos Livros de Bolso, à Colecção Saber e a mais algumas, e a preços que não eram exagerados. Agora temos editoras que continuam a falhar rotundamente no trabalho de revisão. Depois aparece-nos isto: na pág. 240, entre os exilados no Brasil, o nome de Joaquim Barradas de Carvalho é citado duas vezes. Não sei se o historiador tinha um irmão do mesmo nome, mas se não tinha então uma referência chegava;; na página 350 temos a chamada "mudança cosmética": se a PVDE mudara para PIDE, houve quem fizesse ainda pior. Assim, ficamos a saber que o "Maconde African National Union (MANU), (...) em 1961 mudaria o nome para Maconde African National Union". Confesso não perceber as razões desta mudança. Não era mais simples dizer "MANU" em vez de "African...."? haveria um guerrilheiro chamado Manu e levantar-se-iam confusões? não sabemos. Há mais gralhas, mas estas são suficientes.
 Os livros são caros, em Portugal. Revê-los decentemente é o mínimo exigível. Continuamos, em muitos casos, a deparar-nos com estas situações.Se em dez livros que leio encontrar um sem gralhas já é muito. Uma tristeza. Edição deste ano, Clube do Autor.

Wook.pt - Inimigos de Salazar


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