sexta-feira, 2 de março de 2018

Como repovoar o interior de um país

Em alguns passos:

1. Incêndios devastadores arrasam milhares e milhares de hectares e matam dezenas de pessoas. Acresce a isto a destruição de todo o tipo de bens.

2. De maneira brilhante, o governo intima os proprietários e não só à limpeza das matas (e não só).

3. Como boa parte dos proprietários são pessoas idosas ou sem capacidade económica- ou simplesmente interesse e disponibilidade- para realizar a dita limpeza, a medida não é cumprida por muitos.

4. Na sequência o estado expropria uma série de propriedades. Em outros casos são mesmo os donos que as cedem voluntariamente- escusam de ter chatices com algo que não dá para nada.

5. De forma brilhante, o governo cria uma bolsa de terras ou um banco de terras ou como se lhe queira chamar e dispõe-se a entregá-las a quem nelas se quiser instalar, desenvolver actividade económica.

6. Por razões humanitárias uma parcela dessas terras é entregue a famílias de refugiados coitadinhos fugidos da guerra na Síria e nas províncias africanas e asiáticas da Síria- Mali,Senegal, Nigéria, Congo, Paquistão, etc.

7. Problema: os refugiados coitadinhos não querem a benesse. Preferem os subsídios belgas, suecos, alemães a um terreno na Beira Interior.

8. Insiste-se na solução. Pelo menos alguns milhares hão-de aceitar. Mesmo assim não chega.

9. Alguma coisa se há-de arranjar. Vendam-se terras a chineses, turcos, argelinos, seja a quem for, desde que vítima da guerra, fome ou racismo. Homofobia também serve.

10. Alguém se lembra de que talvez fosse boa ideia oferecer essas terras a portugueses residentes na Venezuela, na África do Sul ou mesmo a sul-africanos brancos espoliados pelo governo local. Ainda por cima é gente com experiência na agricultura e gestão de terras.

11. Alguém faz notar que esta sugestão é profundamente racista. Os sul-africanos brancos e os venezuelanos não fogem da guerra na Síria, ao contrário dos gambianos, costa-marfinenses, somalis, eritreus, etc.

12. O Interior ganha alguns milhares de novos residentes, mas como não percebem nada de agricultura ou silvicultura vivem de subsídios estatais.

13. O plano é declarado um êxito humanitário e um exemplo para o mundo.

2 comentários:

  1. Esta posta provcou-me uma reacção bipolar: por um lado, não pude deixar de rir com o brilhantismo da denúncia e da ironia utilizada... por outro lado, não posso deixar de me preocupar com o diagnóstico certeiro!

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    1. Não me admiro se fizerem algo do género.

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