quarta-feira, 11 de outubro de 2017

poesia (CXXV)

Quando páro e contemplo meu estado
e os lugares que tenho percorrido,
acho, ao ver por onde eu andei perdido,
que a maior mal pudera ter chegado;
  mas se da senda estou já olvidado,
não sei como esse mal foi atingido;
sei que me acabo e mais tenho sentido
ver acabar comigo o meu cuidado.
  Acabarei, pois me entreguei sem arte
a quem saberá perder-me e acabar-me,
se o quiser, e há-de saber querê-lo;
 se meu desejo pode assim matar-me,
o seu, que não defende a minha parte,
podendo-o, - que fará senão fazê-lo?

Garcilaso de la Vega, Antologia Poética (trad. José Bento), Lisboa, Assírio e Alvim, 1986.

Sem comentários:

Enviar um comentário