terça-feira, 13 de junho de 2017

Sobre a importância das migrações no islão

A recente crise migratória que afecta a Europa tem levantado diversas questões, mas deixado de lado uma absolutamente essencial.
 Quando falamos de emigração/imigração, tendemos a pensar numa acção levada a cabo pela necessidade de melhorar as condições de vida. Emigra-se, geralmente, porque no país de origem não se encontram as condições que se procuram, sejam elas salários mais elevados, realização profissional ou outra qualquer.
 No entanto, a actual vaga migratória que submerge a Europa, oriunda de África e da Ásia, não tem na origem tais motivos – para muitos dos que chegam. Porque, ao contrário do que sucede no Ocidente, a migração possui um significado muito diferente no imaginário islâmico.
 A história do islão inicia-se com uma migração, e tão importante é ela que assinala o início do calendário. A Hégira, viagem de Maomé de Meca para Medina, é um momento fundador, algo que não sucede com qualquer tradição ocidental. Em Meca, Maomé não era ouvido, mas com a passagem a Medina tudo muda, o seu poder começa a consolidar-se e, a partir daí, a ascensão e a expansão serão imparáveis.
 Portanto, tudo tem início com uma migração, e não é por acaso que ainda encontramos contemporaneamente diferentes grupos salafistas que remetem para aquele momento fundador. O palestiniano Abdullah Azzam foi um dos principais ideólogos da jihad dos nossos dias. Mentor de Osama bin Laden, instalou-se no Paquistão durante os anos oitenta e foi igualmente um dos nomes grandes ligados à luta contra os soviéticos no Afeganistão. Considerava, precisamente, que era dever dos muçulmanos a prática da hégira, que neste caso teria lugar naquele país. Assim, os muçulmanos do mundo deveriam migrar para o Afeganistão, com vista ao combate contra o infiel, neste caso duplamente pernicioso porque ateu. Assassinado no final da década, Azzam permaneceu como uma das referências centrais no pensamento jihadista contemporâneo.
 Mais recentemente, o Estado Islâmico retomou este apelo. Em diferentes vídeos refere a ida de combatentes europeus para a Síria ou o Iraque como reproduzindo a hégira, essa migração que o muçulmano deve estar preparado para realizar, sobretudo se em defesa da comunidade. Assim, os jovens europeus que se deslocam para o califado, não o fazem apenas, ou sobretudo, pelo desejo de aventura. Cumprem um desígnio religioso com fundamento no início do islão.
 Todo o muçulmano tem por referência Maomé e os quatro primeiros califas, ditos os bem guiados. Todo o muçulmano deve imitar, aproximar-se desses modelos ideais, sobretudo o primeiro. Todo o muçulmano tem, como tal, na hégira uma referência. A migração no imaginário islâmico nada tem a ver com o conceito no mundo ocidental. É um acto fundacional, com tudo o que isso implica. Sendo, portanto, parte da essência do fundamentalismo. Não há islamismo sem migração.
 Esta ideia esteve, tem estado, presente na cultura islâmica a diversos níveis. Época de Migração Para Norte, do sudanês Al-Tayyeb Salih, é considerado o mais importante romance árabe do século XX. Surgido há cinquenta anos, em 1966, fala das experiências de um sudanês em Londres. Das suas relações com o mundo pós-vitoriano e pós-primeira guerra mundial. Das suas conquistas amorosas, também. Porque o vírus do orientalismo e do amado “outro” não é algo dos nossos dias. Embora atingindo níveis de demência, encontra raízes no passado moderno. Exótica nesses dias, a migração ganhou ímpeto após a segunda guerra mundial com a chegada de oriundos das ex-colónias. Se um investigador insuspeito de simpatias direitistas, como Tony Judt, escreve que nos anos cinquenta/sessenta era quase impossível encontrar um não-branco em Londres, a história hoje alterou-se. O cenário muda e continua a mudar porque, na maioria, os homens e mulheres que governam os destinos da Europa não possuem uma visão histórica e uma cultura que lhes permita captar a essência de certos conceitos. São ignorantes, na maior parte; coniventes, na outra.

 A chegada de milhões de asiáticos e norte-africanos à Europa não é, pois, uma simples migração de alguns que querem melhorar as condições de vida. É a reprodução de um episódio histórico, o reviver do momento inicial com tudo o que tal implica. Não perceber isso é não perceber metade (ou mais) do que está em jogo.

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