sábado, 19 de agosto de 2017

Não temos medo!

Não temos medo!", gritou-se em Barcelona. Já se tinha gritado o mesmo em Nice, Bruxelas, Paris...
Não têm medo? deviam ter. Eu tenho. De levar com um automóvel em cima, de ir pelos ares com um suicida, etc. Mas vou fazendo o que posso para o superar.
"O medo é a mais primordial das emoções", dizia H.P. Lovecraft. Foi o medo que nos garantiu até aqui. Os nossos antepassados das cavernas tinham medo de leões, ursos, feras de todo o tipo. Lutaram contra ele, foram engenhosos e deixaram descendência. Uma sociedade que diz não ter medo perdeu o instinto de preservação.
Pensam, talvez, que dizer isso vai impressionar os jihadistas? não vai.
"Não tenho medo!", diz a zebra ao leão que a persegue. E este ri-se da inconsciência.

poesia (LXXIX)

GOSTARIA

Gostaria
Gostaria
De vir a ser um grande poeta
E que as pessoas
Me pusessem
Muitos louros na cabeça
Mas aí está
Não tenho
Gosto suficiente pelos livros
E penso demais em viver
E penso demais nas pessoas
Para estar sempre contente
De só escrever vento.

Boris Vian. Canções e Poemas (trad. Irene Freire Nunes/Fernando Cabral Martins), Lisboa, Assírio e Alvim, 1997.

sexta-feira, 18 de agosto de 2017

Livro do dia: Preto- história de uma cor

Livro muito interessante, escrito naquele registo típico da historiografia francesa. A evolução do preto ao longo dos tempos, as suas ligações, significados, percepções. Naturalmente, com incursões pelas outras cores. O autor é também criador de uma história do azul, publicada na mesma editora, a Orfeu Negro. A edição é de 2014.

Preto - História de Uma Cor

História da Filosofia (XV)

"O período inicial do Cristianismo é rico em polémicas. Os Padres Apologéticos e outros cristãos vão ter de definir a doutrina e, simultaneamente, enfrentar os adversários que atacavam a religião emergente.
 Duas correntes podem ser definidas. Uma, representada por Taciano, Ireneu de Lyon e Tertuliano, entre outros, desconfia da filosofia, daquilo a que chamam "vãs filosofias", muitas vezes aparentadas à heresia ou encontrando-se na génese desta. Demasiada reflexão incontrolada conduzia ao erro. Outra, na qual se inclui Orígenes, olha para a filosofia com condescendência e vê nela valor. Identifica, inclusive, Platão como sendo um 'Moisés da Ática' pelas suas intuições - muitas vezes próximas do Cristianismo. Será com Santo Agostinho que as duas correntes se encontrarão num equilíbrio entre fé e razão.
 Estes três primeiros séculos são, como se disse, marcados por polémicas muitas vezes violentas. Celso, num conhecido texto, ataca os cristãos, insultando-os e rebaixando-os. Porfírio vai mais longe e chama-lhes 'bandalhos sem senso nem educação'. Na resposta, Atanásio refere-se-lhe como 'corno e depravado'. Em alguns momentos vivem-se momentos hilariantes, como aquele que nos é relatado por Epimeteu de Pérgamo. Diz ele que na cidade, por volta do ano 200, a polémica estava ao rubro. Um dia, Apolónio foi acusado por um cristão de ser um 'maluquinho das favas' devido à sua crença pitagórica. Na resposta, Apolónio dirigiu-se a casa dele com alguns amigos e despejou-lhe em cima vinte sacas de favas após o que se retirou, por entre a risota geral."- Ferreira e Silva, História da Filosofia, Editorial esquadrão Classe A.

Um aviso com centenas de anos

Enoch Powell, em 1968, alertou para os perigos da imigração extra-europeia. Fê-lo em Birmingham (cidade hoje islamizada) para uma audiência de conservadores. Fê-lo recorrendo a Virgílio e à Eneida. Se foi - e é - ridicularizado por alguns pela sua profecia o facto deve-se também à ignorância. Uma ignorância cada vez maior à medida que os clássicos greco-latinos foram sendo substituídos no ensino por lixo pós-moderno. Não é por acaso que aqueles são eliminados dos programas escolares. E sobre isto, diz-nos Roger Scruton, uma das poucas mentes lúcidas dos nossos dias:
 "É, de facto, a sibila Cumana que exprime essa profecia no Livro VI da Eneida, e embora esteja a prever os efeitos que vêm da imigração, é aos problemas sofridos pela imigração que se refere. O imigrante em questão - Eneias viaja para Itália à frente de um determinado séquito, levando os deuses da sua terra e um direito divino de residência. A sua intenção de se instalar não é tolerável e, se isso significar 'guerras, guerras horrendas', assim seja. Os imigrantes modernos, globalmente, não se comportam tão mal. Não precisam. Todavia, tal como Eneias, os nossos imigrantes vêm com os deuses da sua terra. Tal como Eneias, vêm com uma intenção insuportável de criar uma terra para eles. E se rivais indígenas desagradarem aos seus deuses, depressa tornarão esse facto conhecido. As previsões que Powell fez no seu discurso, respeitantes à inclinação do equilíbrio demográfico, à guetização das cidades industriais e ao crescimento do ressentimento entre a classe trabalhadora indígena têm-se concretizado" (in As Vantagens do Pessimismo, Quetzal, 2011).
 O estúpido corrector ortográfico ou lá o que é sublinha-me "Eneida" e "Cumana". Não sabe o que é isso. Sintoma dos dias.
 Sabemos como termina o texto clássico. O pio Eneias vence - tal como os muçulmanos de hoje era muito devoto - e Turno, o líder dos autóctones é morto em batalha. "E a vida, com um gemido, esvaiu-se indignada para o reino das sombras" (cito de memória, pode haver versões diferentes consoante a tradução). E assim se encerra a história. Mas repare-se na evolução. na altura morre-se em batalha. Hoje os europeus morrem como cordeiros às mãos dos invasores. E depois de atacados não pegam em armas, mas em flores.

Moderação

E porque nunca é demais lembrar: não existe islão moderado. Tal como o termo "islamofobia" foi criado nos anos setenta para servir a agenda islâmica, o mesmo se passa com a distinção entre "moderados" e "radicais".
Só existe islão (dividido em sunita e xiita, com este subdividido em vários ramos). E todo, todo o muçulmano verdadeiro toma como modelo a vida de Maomé e dos quatro primeiros califas. Olhe-se, estude-se a vida de Maomé e tirem-se as conclusões devidas.
E quando alguém nos diz que tem amigos muçulmanos ou conhece muçulmanos e eles não são assim, das duas uma: ou estão a dissimular ou não são muçulmanos. Porque a religião não é um buffet onde se escolhe o que apetece. Um indivíduo que se diga católico mas vai à bruxa ou crê na reencarnação ou no reiki, etc não é católico. Segue ensinamentos opostos ao catolicismo. O que ele faz é uma mistura muito new age, mas que não é catolicismo. É falta de uma catequese séria - e aí a Igreja tem culpas no cartório.
Do mesmo modo, um indivíduo que beba, jogue no euromilhões, coma bifanas, etc, não é muçulmano mesmo que se apresente como tal. Dizer-se católico, protestante, muçulmano, pagão, etc, de nome, herança não é nada. A religião pratica-se.

poesia (LXXVIII)

No fundo da minha mente,
Tudo o que sinto é desconfiança,
No fundo da minha mente,
Tudo o que vejo é sujidade,
Segregação de pensamentos,
Ideais transformando-se em pó.

Onde algumas casas se erguiam,
Está um homem com uma arma,
Em alguma vizinhança,
Um pai enforca os eu filho,
No fundo da minha mente.

Ian Curtis, Antologia Poética (trad. José Alberto Oliveira), Lisboa, Assírio e Alvim, 1996.

quinta-feira, 17 de agosto de 2017

Livro do dia: Sobre a Verdade

Escrito em 2005, numa altura em que o relativismo já estava em maré alta, editado agora entre nós. Porque nunca é demais lembrar que uma sociedade só subsiste se assente na verdade. Edição da Gradiva.

Sobre o atentado em Barcelona

Agora, há que seguir o manual.
Vamos dizer que não é certo ser terrorismo. Mesmo que seja tem causas identificáveis: a pobreza, a exclusão, o aquecimento global, o imperialismo, noites mal dormidas, etc.
Depois de identificados os alegados responsáveis (nada de dizer os terroristas), comprovando-se serem muçulmanos vamos dizer que não podemos cair na islamofobia. Aliás, com sorte os ditos rapazes até têm nacionalidade espanhola, pelo que é melhor identificá-los como espanhóis. Não vamos atiçar o ódio racial (o islão não é uma raça, mas não importa).
Vamos relembrar que a Inquisição matou pessoas, que os católicos, os protestantes, os ortodoxos também mataram gente. E só não se lançavam com automóveis para cima de multidões porque nos séculos passados não havia disso. Mas se procurarmos com cuidado ainda havemos de encontrar um padre que no século XVI se lançou com uma carroça para cima de uns muçulmanos.
Indispensável falar nas Cruzadas.
Acrescentar que a culpa é do Trump e da invasão do Iraque. Antes de 2003 o mundo islâmico era um oásis de paz.
Dizer que não vamos ceder ao ódio e referir que a extrema-direita mata muito.
Convocar a indispensável vigília e apelar a uma concentração pacífica com velas, flores, peluches e um gajo a tocar Imagine ao piano.
Ter cuidado para que nenhum peluche seja um porco - pode ofender os muçulmanos.
E não esquecer as reportagens com as famílias dos suspeitos (nada de dizer terroristas) para ficarmos a saber que eram umas jóias de moços.
Acrescentar algo a gosto.

poesia (LXXVII)

TRÊS ANOS DEPOIS

Tendo empurrado a porta estreita e oscilante
Deambulei depois no pequeno jardim
Docemente banhado plo sol da manhã,
Que polvilhava as flores com um brilho de cetim.

Nada mudou. Revi tudo: o caramanchão
De vinha a envolver cadeiras de rotim...
O repuxo murmura o seu argênteo som
E o velho titubeia um lamento sem fim.

Palpitam como outrora, as rosas; como dantes,
Os lírios orgulhosos ao vento balançam.
No seu vaivém conheço ainda estas calhandras.

E encontrei de pé a estátua da Veleda
Com o gesso a desfazer-se ao fundo da alameda,
- Tão fino, entre o odor mortiço da reseda.

Paul Verlaine, Poemas Saturnianos e Outros (trad. Fernando Pinto do Amaral), Lisboa, Assírio e Alvim, 1994.

quarta-feira, 16 de agosto de 2017

Livro do dia: Gramsci: A cultura, os subalternos, a educação

O interesse por Gramsci, entre nós, veio por fases. Nos anos a seguir à abrilada editou-se algum material dele, com destaque para o trabalho de Palmito Togliatti lançado pela Estampa (editora que, por esses anos, deu ao mundo tudo e mais alguma coisa sobre marxismo).
 Posteriormente caiu no esquecimento e é desde há poucos anos que voltou a despertar interesse.
 Neste trabalho encontramos, além de uma antologia centrada nos pontos mais significativos da sua doutrina e interesses, uma biografia bem como um estudo sobre o filósofo.
 A antologia interessa, sobretudo, pelo retrato da Itália contemporânea e pelas intuições do artista em questões educativas e culturais. Porque no resto há muita prosa vazia, recheada do típico jargão marxista que teria testemunho na pós-modernidade, estruturalismo e outras patacoadas posteriores.
 Edição Colibri (a 2ª), de 2017.

Duas grandes correntes

"Duas grandes correntes se desenham à superfície da história há dois mil anos para cá.
 Distinguem-se em toda a parte sobre esse mar agitado que forma a humanidade em movimento... É a luta entre o mundo religioso e o mundo laico, entre a fé e a ciência, entre paganismo e o cristianismo, entre o eterno e o presente. Luta insistente, imperiosa, encarniçada, a que ninguém escapa. É a desgraça e a grandeza, o flagelo e a honra do nosso tempo; porque toda a história aí vai dar como a uma crise inevitável.
 Considerando-as sinteticamente na sua causa inicial e nos seus efeitos em tempo indeterminado, ser-nos-á permitido chamar a essas duas correntes a corrente de Cristo e a corrente de Lúcifer. "_ Jaime Cortesão, A Águia, Lisboa, Alfa, 1989.

Cristianismo e Cultura

"Se o cristianismo desaparecer, toda a nossa cultura desaparecerá com ele."- T. S. Eliot.

 Correcto. Ou será esta, também, uma frase infame e indefensável?

Falência do multiculturalismo

"A população deve ser homogénea; quando duas ou mais culturas convivem no mesmo lugar é provável que sejam ferozmente conscientes de si ou que acabem adulteradas. Ainda mais importante é a unidade das origens religiosas; e, por motivos de raça e de religião,é indesejável a existência de um elevado número de judeus seculares". - T. S. Eliot, After Strange Gods, 1933.

 James Wood, o crítico que cita esta passagem no seu A Herança Perdida (trad. de Bruno Vieira Amaral, Quetzal, 2012), considera esta passagem infame e indefensável. Sê-lo-à, quando muito, na segunda parte. A primeira é absolutamente certeira e a história deu razão a Eliot.

poesia (LXXVI)

A DEMANDA (excerto)

Daqui irrompe o futuro, por esta porta,
Enigmas, carrascos e acordos,
Sua Alteza que de mau humor acorda
Ou o narigudo Bobo que escarnece dos bobos.

Eminências vislumbram no crepúsculo
Um passado que, por descuido, pode entrar,
Uma viúva com o missionário opúsculo,
A espuma da inundação a marulhar.

Contra ela nos amontoamos pelo medo
E nas portadas batemos ao morrer;
estando, uma vez, aberta, o segredo

Das Maravilhas a Alice deixou ver,
Que no soalheiro por ela foi esperar
E só por ser pequena a fez chorar.

W. H. Auden, O Massacre dos Inocentes uma antologia (trad. José Alberto Oliveira), Lisboa, Assírio e Alvim, 1994.