quarta-feira, 28 de junho de 2017

Território ocupado

Estes trastes, na terra deles, fogem dos mouros e outros invasores. Chegados aqui comportam-se como se estivessem em terra ocupada. É uma pena que a GNR não lhes possa chegar a roupa (quando a têm) ao pêlo com força. Calculo que o "interessa nacional" não o permita.
 Claro que este comportamento não é exclusivo dos britânicos e dos afro-ingleses. De um modo geral, as pessoas comportam-se como selvagens quando estão de férias. Conduzem como selvagens, estacionam de qualquer maneira, falam alto, gritam, deitam lixo no chão... o facto de estarem afastadas dos seus lugares de origem dá-lhes uma espécie de sensação de "liberdade" que os convence de que tudo é permitido. Até porque nas zonas balneares não mora ninguém - pensam eles. Trata-se de terras criadas de raiz para permitir o gozo e a diversão dos selvagens que, durante uma semana ou quinze dias, escapam às reservas onde se encontram habitualmente.

http://www.jn.pt/local/noticias/faro/albufeira/interior/turistas-nus-e-bebados-causam-revolta-em-albufeira-8597141.html

Livro do Dia: Poemas Escolhidos

De T. S. Eliot existe muita poesia dispersa por aí. A Relógio d'Água já tinha lançado Os Quatro Quartetos; na defunta Hiena existia Quarta-Feira de Cinzas; A Terra Devastada saiu pela Ática e Prufrock encontra-se na Assírio e Alvim. Mas uma edição que reunisse os quatro títulos, que eu saiba, não existia até à data. Ei-la agora, na Relógio d'Água.

Poesia (XXVIII)

Prefácio

Ao nível do mar
como o nome da flor do vinho
murmurado entre relógios de carvão
escrito devagar na cal do silêncio
como o lençol de púrpura
no peito dos amantes
de costas para a morte
ao nível do mar
como um cardume de palavras cintilantes
no horizonte de cinza e de pavor
como um cavalo branco toda a noite
de estrela para estrela
ao nível do mar
como a flor que se abre na boca dos suicidas
um homem
ferido de morte
vai falar

António José Forte, Uma Faca nos Dentes, Lisboa, Parceria A. M. Pereira, 2003.

Uma Faca nos Dentes foi reeditado este ano, pela Antígona.

terça-feira, 27 de junho de 2017

Isto anda tudo ligado

Folheio na Bertrand um livro, O Inspector da PIDE que morreu Duas Vezes ou coisa parecida. Leio que o autor é director da edição portuguesa da National Geographic e professor na Universidade Católica. A dita revista, como sabemos,tem sido uma entusiasta do politicamente correcto. Algumas das suas últimas edições fizeram capa com "os novos europeus" (árabes, africanos, etc), com transsexuais e por aí. É nestas coisas que vamos percebendo o rumo (ou falta dele) do catolicismo actual.

Pátria

"' A Pátria', eis a minha primeira e última inspiração. Mal empregada musa para tão fraco engenho, bem sei; mas, dando à minha Pátria o que tenho, e oferecendo-lhe tudo o que ainda julgo poder, cumpro com o que devo. Que os 'entendidos' me tomem isto por loucas fantasias; talvez tenham razão! que, na verdade, muito ilude o amor. Quero porém morrer sem levar remorsos na minha consciência de português. O amor que consagro a Portugal é uma religião que pode bem ter chegado a fanatismo. Eu sou como as mães... ou como as filhas, que quanto mais vêem prostrado o seu querido filho ou pai, mais sentem crescer por ele a sua ternura. Riam de mim os espíritos fortes e despreocupados; fiquem porém sabendo que, embora o rir seja simpático, eu não me rio de os ver rir; antes sinto em mim que deles me compadeço."- Tomás Ribeiro, Mensageiro nº3, Lisboa, 1897 in De Santo António a Oliveira Salazar, org. Miguel Taveira.

Livro do dia: Salazar- Bibliografia Passiva

A literatura sobre Salazar e o Estado Novo é imensa e cresce todos os dias (quanto ao rigor e isenção, essa é outra conversa). O malvado fassismo dá pão a muita gente. Não é o caso do autor, que aqui nos oferece uma muito útil lista de títulos sobre o Dr. Salazar. O embaixador Fernando de Castro Brandão editara já, há uns anos, esta obra que agora aqui se vê completada e actualizada. No fundo, é praticamente um novo livro. Edição da Contra-Corrente de finais de 2016.

poesia (XXVII)

Oração depois da comunhão

Saciados de teu corpo e sangue
Senhor te pedimos
alarga a íntima compunção
luto e muitos rios de lágrimas
para lá dos nossos pecados
até que num futuro dignos sejamos
da consolação celeste.

O Dom das Lágrimas - orações da antiga liturgia cristã (trad. Joaquim Félix de Carvalho e José Tolentino Mendonça), Lisboa, Assírio e Alvim, 2002.

segunda-feira, 26 de junho de 2017

Liberdade

"Das palavras de independência e liberdade, lançadas no seio alvoroçado das multidões, deviam, como semente do mal, germinar frutos de maldição. A liberdade e a independência não seriam bastante incentivo para mover as molas estúpidas das massas, se alguma grande promessa a cumprir logo lhes não fosse feita. Prometeram-lhes a partilha dos domínios exagerados das ordens religiosas, prometeram-lhes uma liberdade de acção que não gozavam, (...) prometeram-lhes o roubo e a licença...- que mais alentos precisavam as turbas para marcharem entusiastas à destruição..."- Camilo Castelo Branco, Horas de Paz (1865) in De Santo António a Oliveira Salazar- por Portugal (org. de Miguel Taveira).

livro do dia: Os Sete Selos

Pouco dada a estas coisas - mais virada para a Sociologia e para as ciências humanas -, a Afrontamento tem-nos oferecido uma magnífica colecção de textos medievais na qual foram publicadas mais de 15 obras, em tradução bilingue. De Santo Agostinho a Nicolau de Cusa, passando por autores menos conhecidos como Pedro de João Olivi, em edições enriquecidas com prefácios e estudos de qualidade.
 Neste caso estamos perante uma obra do franciscano herético Joaquim de Fiore, uma das grandes influências de Agostinho da Silva e representante do milenarismo medieval. Os Sete Selos são uma interpretação do Apocalipse, na linha da heterodoxia do herege calabrês. O volume vale ainda pelos dois estudos nele incluídos e que situam o autor na sua circunstância, como se costuma dizer. Edição de Novembro de 2016.

zoom

Da série: a geração mais preparada de sempre

Fui hoje à fnac do Colombo. Calculo que façam cada vez mais dinheiro com electrónica, porque em termos de livros aquilo está cada vez pior. Poucas promoções ( e as que existem não valem grande coisa) e atraso nasnovidades, que chegam sempre primeiro à Bertrand (é certo que esta tem distribuição própria de várias editoras, mas isso não serve de desculpa). Adiante.
1. Estou na parte dedicada à História, e reparo em três jovens, na casa dos 18, 20 anos, possivelmente estudantes. São dois rapazes e uma rapariga. Folheiam o livro do sr. Hitler. A moça lê qualquer coisa e diz, com profundidade: "Eh, este homem era mesmo racista". Uma análise concisa, certeira e incisiva.
 Depois, aventuram-se a pegar noutro volume, Os Ditadores, obra reeditada há pouco e que trata do sr. Hitler e do seu vizinho, o sr. Estaline. A jovem está confusa: "Mas o Estaline não era de esquerda?"
 É isso. É das perguntas mais reveladoras que já ouvi. Demonstra todo o sucesso de anos e anos de doutrinação pós-abrileira e politicamente correcta. Para grande parte da nossa juventude a esquerda é sinónimo de bondade, amor e justiça. Só a direita pode ser ditatorial. Estaline, Fidel, Lenine, Mao? nunca na vida. São de esquerda, uma espécie de santos seculares embora, calculo, os jovens desconheçam o significado deste termo. Não é de espantar, boa parte dos que os ensinaram também não a saberiam explicar.
 2. Terminada a ronda, vou pagar. Como não há nada de especial em livros, e os que há já os tenho, levo um cd. O único de originais do sr. Cave que estava em falta. Atende-me uma jovem. São sete euros, dou-lhe doze. "-São sete euros", diz ela, enquanto olha para a nota e as duas moedas. "-Sim, é para me dar cinco", respondo eu.
 Esta é a geração que segue à mais preparada de sempre. Portanto, em princípio, ainda mais preparada. Percebo melhor por que razão as novelas da sic e da tvi conseguem moldar comportamentos.

Compatibilidade

Folheio um livro e deparo-me com uma questão colocada pelo autor: "o islão é compatível com a sociedade moderna?". Resposta: sim, se colocarmos de lado a interpretação literal do Alcorão e deixarmos a tradição (sunna).
 Ou seja, se o islão deixar de ser islão.
 (Quem escreve isto é um senhor espanhol, jornalista, num livro que pretende explicar a jihad).

poesia (XXVI)

Eis que na Eternidade um vulto se levanta
Horrendo! Infecundo, insondado,
Repelente, em si contido: qual Demónio
Concebeu este vazio abominável,
Este vácuo, onde a alma se arrepia? Diziam
"É Urizen." E todavia, insondado e remoto,
A meditar, secreto, o sombrio poder estava encoberto.

William Blake, Primeiro Livro de Urizen (trad. João Almeida Flor), Lisboa, Assírio e Alvim, 1993.

domingo, 25 de junho de 2017

Livro do dia: O Islão Político

Obra instrutiva, sem dúvida. Embora mantendo-se dentro do paradigma oficial tem a honestidade de dar voz a diferentes correntes. Não me recordo de ler um livro sobre o assunto, traduzido em Portugal, que fizesse referência a Robert Spencer e às suas posições. Só por isso já merecia o benefício da dúvida, mas vale por muito mais. Útil roteiro para quem quiser iniciar-se no assunto ou recordar a matéria. Edição de 2016, Bertrand.

Povo

"O povo tinha liberdade e quis licença; tinha justiça, e quis iniquidade; o povo perecerá.
 Desgraçado daquele, que anda fora dos caminhos do Senhor; correndo despeado por despenhadeiros sentir-se-à por fim o baque do seu corpo, que se esmigalha batendo no fundo de um precipício.
 Quando uma Nação quebra todos os laços sociais, dela será o dano.
Para as turbas, o cheiro do sangue é um perfume suave; o roubo uma gloriosa conquista. Porque a plebe desenfreada é como o fantasma do crime, como o espectro da morte, como o grito do extermínio.
Os tiranos sorriem, e dizem por escárnio aos homens virtuosos: ide, e dai liberdade às turbas; erguei à dignidade de homens livres servos devassos, e educados no lodo; eles vos pagarão com a única moeda que guardam em seus tesouros.
Povo! Os que hoje saúdas como numes, amanhã tu os farás em pedaços, e lhes arrastarás pelas ruas os cadáveres cobertos de feridas e pisaduras.
Porque, bem que tarde, conhecerás que eles te hão enganado. Prometeram-te abundância, e achar-te-às faminto; prometeram-te liberdade e achar-te-às servo.
 A licença mata a liberdade; porque se livremente oprimes, livremente podes ser opresso; se o assassínio é o teu direito, direito será para os outros assassinar-te.
Ambiciosos que desvairais o Povo, o Senhor leu no fundo de vossos corações, e me revelou o que aí está escrito! A cobiça do mando e do ouro é o vosso amor da Pátria; a vossa ânsia de liberdade, a sede de tirania.
 Homens, a quem a dissolução social vestiu a toga de Senadores, para debaixo da campa levareis nas frontes duplicado o ferrete da infâmia e do aviltamento. Nelas vo-lo escreveu uma eleição fraudulenta, em que votou o punhal do assassínio, e o óbolo da embriaguez, preço por que a plebe vendeu aos tribunos o exercício de um direito, que não era seu, e que ela tinha roubado por noites de sedição.
 Maldito seria aquele que, vendendo seu pai por preço de opróbio, o entregasse à servidão de estranhos.
 Porém crime tão abominável seria apenas um brinco de infância inocente, comparado com o crime daquele que vendesse a Pátria, e a lançasse em ferros de cativeiro. E este feito infernal foi aprovado no conselho dos tribunos, e porventira eles receberam o preço da liberdade de seus irmãos, que vendiam".- Alexandre Herculano, A Voz do Propheta,

poesia (XXV)

Meia Idade

Agora, em pleno Inverno, o monótono
passeio a pé, Nova Iorque
penetra através dos meus nervos,
enquanto caminho
nas ruas apinhadas.

Aos quarenta e cinco,
e a seguir, a seguir?
Em cada esquina,
encontro o meu Pai,
com a minha idade, ainda vivo.

Pai, perdoa-me
as minhas ofensas,
como eu perdoo
aqueles que
tenho ofendido!

Nunca subiste
ao Monte de Sião, deixaste porém
pegadas
de dinossauro na crosta
onde devo caminhar.

Robert Lowell, Aos Mortos da União e outros poemas (trad. Mário Avelar), Lisboa, Assírio e Alvim, 1993.