segunda-feira, 16 de outubro de 2017

Salazar

Cada vez me convenço mais de que o Dr. Salazar foi uma espécie de extraportuguês que por aqui passou. Andamos a chafurdar na lama há centenas de anos. Fomos alguma coisa durante o Estado Novo, um intervalo na nossa decadência. Foi a última vez que Portugal foi um país. Não creio que o volte a ser.

estado falhado

Um estado que não garante a segurança e a integridade dos cidadãos é um estado falhado. Faltam as milícias dos senhores da guerra, como na Somália ou no Congo, mas se tudo correr bem ainda havemos de lá chegar.

Nacionalizar, pois claro

O dr. Louçã fala em nacionalizar floresta. Pois claro.
Por falar nisso, onde está o Bloco? onde está o PCP? sempre tão céleres na exigência de demissões? onde está o PAN, sempre tão preocupado em saber se os animais podem entrar ou não em restaurantes? onde estão?
 Como é que se pode crer em alguma coisa se passamos os olhos pelos canais de televisão e os comentadores são os mesmos de há anos? alguns dos quais com responsabilidades governativas no passado?

A possibilidade do mal

Quando se abre a porta à possibilidade do mal abre-se a porta a qualquer possibilidade do mal. Não se pode escolher de forma parcelar.
 Há muito que Portugal escolheu esse caminho. Não foi só na União Soviética e nos regimes marxistas que a alma da sociedade foi corrompida pelo materialismo. Aqui sucede o mesmo há décadas.

Merecemos melhor?

Quando a troika nos veio ao bolso - em virtude dos desmandos anteriores do maralhal socialista e afins - fomos aos milhares para as ruas. Quando o país é destruído sistematicamente ficamos em casa. Merecemos bem o governo que temos.

Já tudo foi escrito há mais de cem anos.

"E o que mais confrange, é esta abdicação, no Estado como no indivíduo, ser feita de indolência estúpida, de desgoverno insólito, de falta de brio cívico. Não nos cerceia a miséria filha dum estancamento completo de recursos: cerceia-nos o desleixo, derivante dum descaminho de força, e duma aplicação viciada de predilecções e faculdades. A maioria das nossas populações é feita desses tipos intermédios, expectantes, passivos (...) que os fortes pisam e manietam ao seu carro, e para que não há lugar na vida agitante dos nossos dias. O resultado é este: em cima, o país gozado por dez ou doze charlatães, de parceria com dez ou doze bandidos, o todo fazendo permutações de infâmias e jiga-jogas  de negociatas, que lhes permitam aguentarem-se alguns meses mais no tombadilho: em baixo a massa avulsa, morrinhenta, sórdida, sem força, desiludida de tudo, insultando-se como os bêbedos, sofrendo o azorrague como os cães, vendo passar as afrontas indiferente, e deixando-se cair alfim no próprio vómito, onde a letargia a açovaca, até que uma chicotada nova a faça outra vez estrebuchar."- Fialho de Almeida, Os Gatos, Lisboa, Ulisseia, 1986.


poesia (CXXIX)

Para começar,
sem pormenores
e para os tornar mais gerais, fazendo
a soma por defeito -
farejando as árvores,
apenas outro cão
entre muitos outros. Que
mais há ali? E que fazer?
Os restantes foram todos
atrás dos coelhos.
Apenas o aleijado fica
sobre as três patas; coça-se atrás e à frente.
Simula e come. Desenterra
um osso bolorento.

William Carlos Williams, Paterson (trad. Maria de Lourdes Guimarães), Lisboa, Relógio d'Água, 1998.

domingo, 15 de outubro de 2017

Não foi preciso um ano

Pensava eu, quando ocorreram os incêndios de Pedrógão e mais alguns, que depois dos discursos continuaria tudo na mesma. Que no próximo ano, quando a floresta voltasse a arder, teríamos direito a novas ladaínhas. Não foi preciso tanto. Chegamos a 15 de Outubro e tudo arde. Voltam a morrer pessoas, o Estado mostra que é incapaz de defender os cidadãos. Possivelmente estão melhor organizados os incendiários - devem ter consultado a página do ipma, visto que nos próximos dias a previsão é de chuva, e trataram de exercer neste fim-de-semana o ofício criminoso.

Uma guerra esquecida

Noticia-se hoje que a marinha portuguesa interceptou 18 "refugiados" que se dirigiam a Itália e acabaram recolhidos pela guarda costeira daquele país. Os infelizes são tunisinos e, provavelmente, fogem da guerra e da fome. É um drama pouco falado, infelizmente. Desde a eclosão do conflito na Síria as guerras alastraram por toda a Ásia e África.
 Da Gâmbia, Senegal, Tunísia, Marrocos, Egipto, Costa do Marfim, Gana, Bangladesh, República Dominicana, todos os dias chegam à Europa refugiados das ferozes guerras que afectam esses países e das quais nem sequer se fala.
 "-Ah, mas há outros países que têm mesmo guerra ou terrorismo!", diz o humanista. Sim, Paquistão, Congo, Mali, Níger, Somália, Sudão sofrem com tais problemas. Mas qual é a lei que obriga a Europa a arcar com todas as vítimas do mundo?
 E quando a Espanha, a Grã-Bretanha, a Itália, a França, a Alemanha e outros penam com ataques terroristas não consta que os seus naturais se refugiem em outros territórios.

Informação de qualidade

De quando em vez passamos os olhos pela "informação" televisiva. Hoje a ronda foi à hora de almoço. Na rtp1 falava-se da queda em desgraça do produtor holywoodesco. Uma peça tão bem feita que foi capaz de se abster das relações entre o facínora e a quadrilha Clinton. Que pena ele não ser amigo do infame Trump, teríamos material para novas novelas e filmes de acção.
 Saltamos para a sic e surge-nos o drama da "transfobia". Um jovem lançou um livro para ajudar os que sofrem, o pivot anuncia que, amanhã, o excelente programa E se Fosse Consigo? abordará este verdadeiro flagelo da nossa sociedade - a "transfobia", provavelmente o maior problema dos nossos dias ao lado do racismo e da "homofobia".
 Tudo na mesma, portanto. A "informação" cumpre e não desilude. A construção da nova sociedade prossegue a bom ritmo.O que os soviéticos deixaram a meio os seus irmãos capitalistas concluirão com muito agrado.

Uma nacionalidade caduca

"De resto, é um contra-senso exigir que os costumes políticos sejam melhores que os particulares. O parlamentarismo não falhou entre nós, por mau regímen, mas porque não há fórmulas eficazes para nacionalidades caducas como a nossa.
 Conclui-se disto a deliquescência da vida portuguesa, nos seus duplos aspectos da consciência e da moral. Lá começa primeiro uma separação completa e desdenhosa entre os interesses da grossa massa da população, e os da matilha que reparte entre si os dinheiros das rendas públicas, e se crapuliza na porfia escandalosa do poder. Vê-se em seguida a indiferença pública crescer em matéria política, os jornais serem lidos só por passatempo, os actos do governo serem mencionados só como uma variante de anedotas obscenas, a política armar em profissão sem hombridade, em impune chantage, e jornalistas e homens de estado enfileirarem, no conceito geral, logo em seguida aos ratoneiros e aos assassinos."- Fialho de Almeida, Os Gatos, Lisboa, Ulisseia, 1986.

Pôr em Causa

"Uma pessoa que pretenda pôr em causa seja o que for deve sempre começar por explicar as coisas que não põe em causa".- G. K. Chesterton, Chesterton Dixit - frases célebres e aforismos, Lisboa, Aletheia, 2016.

poesia (CXXVIII)

No dia de Santa Teresa de Ávila

Nada te perturbe,
nada te espante,
tudo passa,
só Deus não muda.
A paciência
tudo alcança.
Quem a Deus tem,
nada lhe falta.
Só Deus basta.

Santa Teresa de Jesus, Poemas (trad. Pe. Agostinho dos Reis Leal), Lisboa, Aletheia, 2015.